Maria da Graça Carvalho, titular da pasta do Ambiente e da Energia, é bem capaz de ser a melhor ministra deste Governo. Pelas decisões que toma, pela coragem com que dá o peito às balas e pelas explicações a que não se furta – seja nas estações de TV ou nas redes sociais – e nas quais demonstra experiência, bom senso, conhecimento e preparação. Merecia, por isso, ter quem lhe facilitasse a vida e não lhe arranjasse mais preocupações do que aquelas que tem.
Só as contestações à construção de novas barragens por parte dos colecionadores de calhaus e dos protetores de libelinhas ou a resistência de populações pouco esclarecidas à instalação de minas de lítio e de aterros sanitários já lhe deviam bastar. Mas tem muitos outros problemas bicudos pela frente, como o da Herdade da Comporta e do ‘cerco’ a meia dúzia de praias públicas da zona. Avançando os planos dos investidores, deixar-se-ia de cumprir o que determina a lei: a não existência de praias privadas em Portugal.
Como se fosse coisa pequena o que está em jogo e que interfere diretamente com a qualidade de vida dos portugueses, houve há dias uma ‘inteligência ambiental’ superior que resolveu inventar. Infelizmente, não uma forma de ajudar os municípios a contratar os 265 vigilantes que faltam nas praias, uma ninharia. Optou, sim, por uma polémica para fazer prova de vida e animar a atualidade informativa no pré-verão: a magna questão da localização dos guarda-sóis particulares nas praias concessionadas.
Ora, o que se passava até agora era uma relação pacífica e consensual entre concessionários de 30 por cento do espaço público à beira-mar e os utentes em geral, que colocavam chapéus de sol, cadeiras e outros equipamentos pessoais nas zonas laterais às concessões ou seja, nos restantes 70 por cento de área disponível. Era uma forma ordeira e natural de cada um disfrutar com tranquilidade do sol e do mar, e de os empresários garantirem, por sua vez, o retorno dos investimentos, continuando a apoiar os nadadores-salvadores e a cederem gratuitamente chuveiros, lavabos ou simples lava-pés aos banhistas, pagantes ou não.
Com a ‘clarificação’ da regulamentação por parte do presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (AP), José Pimenta Machado, e da própria ministra – vá lá entender-se porquê – teremos um verão pleno de conflitos que se deviam ter evitado. Guarda-sóis avulsos instalados ao lado, ou mesmo ‘em cima’ de espreguiçadeiras alugadas, acesso ao mar dos nadadores-salvadores dificultados ou até barrados pela traquitana de famílias inteiras – a que se juntará a ausência tradicional da autoridade marítima nas praias – são o caldo perfeito para uma guerra social espúria. O líder da APA, que está no cargo há um ano e meio e que no verão de 2025 não se lembrou disto, ‘resolveu’ o imbróglio com um ‘comunicado’. Não chega. O caso ganhou uma dimensão que impõe que Maria da Graça Carvalho venha a terreiro e que seja ela a pôr os pontos nos ‘is’ de modo a que não restem dúvidas.
Do muito que retive de centenas de episódios da série norte-americana ‘Dr. Phill’, aprendi depressa uma coisa: há pessoas perturbadas, ou apenas malévolas, que todos os dias saem de casa com o único objetivo de arranjar conflitos. E não só nos Estados Unidos. Agora imagine-se o que se irá passar num país onde, por exemplo, num tribunal se apontam armas a guardas da GNR para se libertar um preso ou num hospital se agridem seguranças e enfermeiros por não serem tão ‘diligentes’ como gostariam os energúmenos. Não será preciso esperar muito para que os nossos areais se transformem em arenas: concessionários tentando proteger o seu negócio e provocadores aproveitando a oportunidade para fazer baderna e lançar o caos numa qualquer praia do país. E a conclusão é simples – abrimos uma caixa de Pandora de maneira nada inteligente, sofreremos estupidamente as consequências.
Publicado em 24horas.pt em 3 de junho de 2026
