Alexandre Pais

Jorge Jesus promete uma ‘rentrée’ animada

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Em entrevista ao diário ‘Marca’, o dianteiro espanhol Mikel Merino explicou a forma como obteve o golo que levou La Roja a eliminar a nossa Seleção do Mundial de futebol: “Vi que tínhamos alguma superioridade, Bernardo Silva protestava e não estava a olhar para a bola, decidi avançar rápido e apanhámo-los desorientados”. Eis uma visão externa e objetiva que confirma que a pálida participação portuguesa se ficou a dever ao sub-rendimento da maioria dos jogadores e não apenas ao de Cristiano Ronaldo, como tentam provar, com desespero, aqueles que o diabolizam.

Só a tomada de posse de Jorge Jesus como selecionador logrou suspender, durante alguns minutos, a intensa atividade nas trincheiras dos adeptos pró e contra Cristiano Ronaldo. Tudo por existir uma única dúvida: o que pensaria o novo técnico nacional da polémica que vem agitando comentadores de jornais e canais de TV, e milhares de ‘bitaiteiros’ de café que pululam nas redes sociais?

Foi pequena a trégua. Perguntado sobre o tema Cristiano, JJ não podia ter sido mais claro, traçando um quadro de pragmatismo e bom senso: será convocado se estiver em forma, jogará se tiver de jogar, será substituído quando tal se justificar e poderá, mesmo, falhar algumas partidas – numa gestão semelhante à que foi feita na época que finda agora, no Al-Nassr, pelo próprio Jesus.

Curiosamente, não foi uniforme a reação dos ‘haters’ de Cristiano, grupo em que se incluem – valha a verdade – igualmente fãs do muito que o jogador deu ao futebol e ao país, mas críticos ferozes do prolongamento de uma carreira sem fim próximo à vista. Estes últimos logo perceberam que podia ser mau para as respetivas avenças continuarem a remar contra uma maré que vai encher e refletiram: se tem de ser, deixa-me cá aguentar a coisa, dizer que sim mas que também, quem sabe tudo corre pelo pior na Liga das Nações e então voltarei à carga. É uma gente muito resistente.

Menos íntimos da inteligência, outros analistas alimentam ainda a esperança que Cristiano venha em seu socorro e não queira prosseguir, por mais uma temporada que seja, na Seleção. E que aceite a sua, deles, tão generosa ‘proposta’ à FPF para que o ‘capitão’ prossiga ligado à equipa das quinas mas… não dentro do campo. Como se isso fosse possível! Calcula-se o enorme sofrimento desses radicais que tanto gostavam que a vida decorresse segundo as suas sábias diretivas. Não sendo assim, boas melhoras é o que se pode desejar.

Nas redes sociais, o festival de asneiras é talvez mais absurdo porque o desconhecimento da razão estende-se a uns 90 por cento dos opinantes e mal Jorge Jesus apresentou Cristiano como ‘símbolo de Portugal’, de imediato o espírito de sobrevivência na lama repôs as mensagens de ressabiamento. Elas têm várias origens – ou até nenhuma. A saber: porque o homem ganha 250 milhões de euros/ano e joga num país que não respeita os direitos humanos ou porque é adepto de um clube rival ou porque foi recebido por Donald Trump ou simplesmente porque sim. Ao ódio, basta a inveja social para que se torne pujante e eterno – não existe volta a dar.

Agora, vamos a banhos. Mas em dois meses, Jorge Jesus fará a sua primeira convocatória para uma competição em que a Seleção terá de disputar quatro partidas em 11 (!) dias. E como em algum ou alguns desses jogos por certo não venceremos e Cristiano poderá até jogar tanto como, no passado sábado, jogou o fantástico Erling Haaland – ou seja, nada – teremos de novo o caldo perfeito para uma ‘rentrée’ animada. É mau? É o que é: o poder do futebol com as suas grandezas e as suas misérias. Quem gosta, gosta, quem não gosta tem sempre o banho ao cão ou o ‘Casados à primeira vista’.

Publicado em 24horas.pt em 15julho26

Por Alexandre Pais
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