Alexandre Pais

Leitor critica violência e diferenças de tratamento jornalístico

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De: Paulo Rodrigues
Enviada: terça-feira, 22 de Março de 2011 14:35
Para: Record
Assunto: ATT: Sr. Alexandre Pais

Exmo. Sr. Alexandre Pais

Boa tarde

Escrevo-lhe na qualidade de cidadão, preocupado como é óbvio com a violência verificada sobre a comitiva do Benfica através do cobarde arremesso de pedras sobre o autocarro da equipa e sobre o veículo onde seguia o presidente da referida agremiação desportiva.

Este tipo de situações é complexo e as razões para a sua ocorrência tem causas que ultrapassam a vulgar rivalidade entre clubes, ou a inimizade que dois deles parecem gerar.

Desde a falta de uma educação efectiva dos cidadãos, passando pela crise social em que vivemos e concluindo, como é óbvio, na absoluta irresponsabilidade dos seus dirigentes desportivos (ambos).

Tendo esses factos em conta, existe uma realidade que é perigoso disfarçar ou até atenuar; trata-se da diferença de tratamento que a comunicação social dá a eventos cuja realidade é a mesma mas cujos interlocutores (ou neste caso, vítimas) parecem pertencer a classes distintas, como se uns fossem cidadãos de primeira e outros nem por isso.

Não é disso que se trata, compreendo-o, mas o que transpira para a população e nomeadamente para a população afecta ao clube portuense é que existem dois pesos e duas medidas para reproduzir eventos cuja similitude resiste a qualquer prova.

Para melhor explicar o meu ponto de vista, recorro a uma notícia saída do DN a 25 de Janeiro de 2010, cujo link adiciono no fim do que escrevo, a qual dá conta de um apedrejamento efectuado contra a comitiva portista, na A5, a dois quilómetros do estádio do Estoril.

Tanto o autocarro dos jogadores como a viatura do presidente do FC Porto, foram atingidos com paralelepípedos, tendo a viatura do referido presidente sofrido o estilhaçar do vidro da frente.

A sensação de dejà vu é evidente.

O que é também evidente é que os principais jornais desportivos fizeram capas sensacionalistas com títulos como “Terror na auto-estrada” ou “Vieira Atingido”.

Compreendo, como já explicou na resposta a um e-mail anterior, que existe um desentendimento (para utilizar um eufemismo) entre o Record e o FC Porto.

Compreendo também que o outro jornal desportivo sediado em Lisboa assume-se cada vez mais como um porta-voz da propaganda de determinado clube.

O que não compreendo, ou melhor dizendo, faço, por respeito aos profissionais deste jornal, um esforço para não compreender, é que o eco dado a uma explosão de violência seja tão diferente quando o nome dos interlocutores se modifica.

Retirando o nome dos visados, o título deveria ser igual: “Agremiação desportiva atacada com pedras à passagem por um túnel. Carro do presidente dessa agremiação atingido” e o destaque, também ele, deveria ser igual.

Mas não é.

Ao optar por dar justo destaque a uma situação anómala e garantir um quase silêncio numa ocorrência em tudo semelhante, se omitirmos os nomes dos intervenientes, este jornal, lamento dizê-lo, contribui para um incrementar das tensões entre os adeptos dos dois clubes.

A propaganda pode matar, a informação raramente o faz.

E agora o link:

http://www.dn.pt/desporto/porto/interior.aspx?content_id=1477921

Aproveito ainda a ocasião para o felicitar pelo Fair Play com que se predispõe a apresentar visões críticas no seu espaço. Essa é a principal razão pela qual me mantenho vosso leitor, apesar de discordar veementemente da vossa política editorial.

Sem outro assunto de momento, melhores cumprimentos

Paulo Rodrigues

Por Alexandre Pais
Alexandre Pais

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