Corria o ano da graça de 1968, ai, ai, quando ao anexo onde funcionavam os Serviços de Gravação da Emissora Nacional chegou a notícia de que um colega meu, o ‘operador Marcelino’ (nome fictício), não iria cumprir o seu turno: tinha levado uma tareia numa esquadra de Lisboa. Saíra com amigos na noite anterior, terão bebido uns copos, foram ‘dentro’ e, palavra puxa palavra, o ‘Marcelino’ acabou por se envolver fisicamente com os agentes e levou um ‘ensaio’. Quando voltou à rádio, dias depois, apareceu com a cara toda amassada. Se bem me lembro, apresentou queixa, mas o ‘papel’ caiu em saco roto. Outros tempos. O ‘25 de abril’ veio pôr fim a essa e a outras impunidades. O problema é que o regime democrático não foi capaz de criar e desenvolver uma relação salutar, de respeito mútuo, entre cidadãos e forças policiais, e de equilíbrio entre direitos e deveres – essa velha pecha que sempre nos perseguirá.
Ainda não há muito, a Relação de Guimarães anulou a condenação de um homem que insultou um militar da GNR, chamando-lhe “burro”. Numa primeira decisão do tribunal, o arguido teria de pagar 1.260 euros de multa, mas a Relação absolveu-o, considerando que se tratou de “um desabafo”. Não fizeram mais os doutos juízes do que seguir o exemplo do tribunal de Paredes, que havia inocentado um troglodita apanhado pela GNR a arrastar a mulher pelo pescoço em plena rua – na sequência de outros casos de violência doméstica perpetrados pelo arguido e registados pelas autoridades. E a absolvição abrangeu também o crime de ofensas e ameaças aos militares que o detiveram, a quem chamou “cobardes”, prometendo persegui-los. A juíza entendeu aquilo – e cá está a desculpa – como “um desabafo”.
Veremos em breve que pena aplicarão os ilustres magistrados ao único energúmeno que foi possível identificar – por inexistência de câmaras de videovigilância – de um grupo de 30, detido há dias em Alhandra, concelho de Vila Franca de Xira, após desacatos que resultaram em quatro agentes da PSP agredidos, “com socos na face e golpes nos membros inferiores”, tendo um deles sofrido fratura do nariz. ‘Desabafos’ dos nossos tempos.
Estes desajustes entre as leis e a sua aplicação são apenas mais um dos motivos que conduziram as forças de segurança ao lamentável estado em que elas estão hoje. Há escassez de armas e coletes porque é preciso cumprir os orçamentos e se possível reduzi-los. As instalações estão degradadas porque as obras urgentes nunca são uma prioridade. As viaturas estão obsoletas ou inativas porque substituí-las custa fortunas e as que andam não circulam porque a ordem é poupar nos combustíveis. A utilização das câmaras individuais vai sendo sempre adiada e a vigilância por vídeo em zonas problemáticas é atrasada porque há que proteger os dados, seja lá isso o que for. Os efetivos são escassos porque não se pode gastar mais em salários, estes são baixos porque o país é pobre e por tudo isso as inscrições nos concursos não cobrem as vagas – ninguém quer ser polícia para ser mal pago e maltratado.
Sim, mais do que a falta de condições é esse défice no reconhecimento que leva pessoas normais a não quererem isso para a vida delas. Arriscam o seu bem-estar e o das suas famílias por tuta e meia para verem depois os tribunais soltarem os criminosos e absolverem-nos de agressões e ‘desabafos’? E correrem ainda eles o risco de ser condenados pelo azar de uma bala perdida ou pelo uso da força perante atos de ameaça e de desobediência cada vez mais numerosos e mais violentos? Só se tiverem um sentido do dever para além dos limites do bom senso ou uma vontade de servir que a sociedade que somos não merece. Ou, claro, se forem maluquinhos.
Mas… aqui chegados, julgará o leitor que estou a relativizar os gravíssimos crimes atribuídos a duas dezenas de elementos da PSP, recentemente detidos, o que não é o caso. Venho do tempo da brutalidade policial que ficava sem castigo e sei bem o que passaram tantos ‘operadores Marcelinos’ entre as paredes de uma esquadra ou no simples trato com agentes lateiros. O que pretendo é demonstrar que as forças de segurança são hoje instituições onde é fácil a ‘invasão’ de gente mal formada, frustrada, ressabiada e criminosa, que lá encontra um caldo de cultura em que a desmotivação profissional criada pela precariedade das condições de trabalho se cruza com o sentimento de injustiça pela retribuição modesta e com a revolta pela brandura com que tantas vezes se pune, ou não se pune, a bandidagem.
Pessoas malévolas, daquelas que saem de casa prontas para arranjar sarilhos, existem em todo o lado e espalham-se pelas diversas profissões, sejam políticos ou padres, médicos ou jornalistas. No jornalismo, aliás, encontrei algumas e eu próprio nem sempre mantive as asas de anjinho. Como se esperaria, então, que a PSP, que perdeu quase todos os quadros intermédios – que ajudavam na integração dos mais novos – e hoje quase só tem chefes feitos a martelo e jovens mal preparados e com tendência para o disparate, escapasse a uma maldição que atravessa toda a nossa sociedade?
Não podia ser e digo mais: duvido que a dimensão do que se passou nas esquadras do Rato e do Bairro Alto seja apenas aquela que nos mostram. Tendo o início da ação contra a violência animalesca partido do interior da corporação, é óbvio que muitos dos envolvidos foram avisados, muitas gravações – que imbecis fardados fizeram para serem mais facilmente acusados, veja-se a estupidez – foram apagadas e muitas vítimas foram ‘advertidas’ para que se calem. A maldade não se erradica e a lei da selva renovar-se-á.
Gosto de polícias e escrevi milhares de carateres, ao longo de décadas e em múltiplos meios de comunicação, a defender a Polícia. Mas para esta cáfila desumana, perversa e brutal, que desistiu de defender os cidadãos e desertou para o lado do mal, que não haja contemplações nem diminuam os ‘desabafos’. A Justiça que faça o seu caminho – sem desculpas, nem hesitações.
Crónica publicada em 24horas.pt em 11maio2026
