Alexandre Pais

Gracias, Roberto Martínez

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Os leitores menos jovens lembrar-se-ão de Luís Felipe Scolari, o selecionador que no início do século modificou a forma como os portugueses sentem e acompanham a sua Seleção. Em poucos meses, o país vestiu-se de bandeiras nacionais e de camisolas da FPF. Foi o nunca antes visto.

Scolari chegou com um título de campeão do Mundo e deixou-nos um vice-campeonato da Europa, em 2004, e um quarto lugar no Mundial de 2006, resultados que abriram o caminho aos êxitos que se seguiram. Mas o que sucedia então com o treinador brasileiro na comunicação social cá do sítio? Era zurzido forte e feio por professores doutores caseiros – alguns que de futebol entendiam bola – e que desde o início exigiam a sua demissão. E faziam-no com a desonestidade intelectual dos biltres, ou seja, sabendo que os ciclos, sejam os profissionais bons ou maus, terminarão um dia.

Roberto Martínez, que trouxe consigo a educação, a simpatia e o berço, mal aprendeu Português e a letra do Hino – nobre e rara postura – logo teve de enfrentar essa tropa fandanga da frustração e do ressentimento, a que se juntaram, entretanto, as ratazanas das redes sociais, cuja inveja é linear: odeiam toda e qualquer luz que revele que nada acontece na sua vidinha nas trevas.

Claro que há gente decente que está no direito de achar que um treinador com 70 por cento de vitórias em duas das seleções de topo do Mundo é demasiado curto para a imensa sabedoria de um país de técnicos de bancada. Porque escolhe não os melhores mas ‘os do Mendes’, porque não sai a jogar com o ‘onze’ adequado, porque não sabe ‘ler o jogo’, porque faz as substituições erradas, porque está ‘refém’ de Cristiano, porque devia ter ido para Miami mais cedo, porque diz coisas óbvias aos jornalistas e até – oh, glória do chauvinismo! – porque é espanhol e talvez apoiado pelos Miguéis de Vasconcelos que por aqui andam, sem ser presos.

Como se não bastasse a aliança entre a ‘intelligentsia’ e a horda animalesca, Martínez leva por tabela com a inveja social que recai sobre Cristiano Ronaldo. É que nem todos os comentadores detestam acefalamente o homem que sublinhou o nome de Portugal no mapa. Alguns são genuínos e reconhecem o que é devido ao capitão da Seleção, só não aceitando que seja já o melhor ‘9’ português – como é – enquanto outros criticam ferozmente o selecionador porque não lhes convém ou não têm coragem de atacar Cristiano. Moral da história: ainda que chegue à final do Mundial, Martínez será uma besta. E se ganhar? Ah, isso terá sido uma vitória dos jogadores… apesar de Martínez. Não existe escapatória para a pequenez.

Roberto, volta a Balaguer com a certeza de que deixas em Portugal uma pegada inapagável. Mas antes, livra-nos da tua Espanha, a magnífica, como fizeste há um ano, com a ajuda de Cristiano – quando ele, já ‘lento e acabado’, se antecipou a Cucurella e fez o 2-2 que permitiu, minutos depois, vencer a Liga das Nações.

E muchísimas gracias pelo trabalho sério, pela empatia, pelo respeito e pela infinita paciência. Chapeau!

Crónica publicada em Record e em record.pt, 4julho2026

Por Alexandre Pais
Alexandre Pais

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