“Há mais armas que país”, dizia aos repórteres, num misto de desespero e resignação, um venezuelano sem acesso a material pesado ou sequer a uma simples rebarbadora e condenado a procurar a família debaixo dos escombros com o recurso dos pobres: as próprias mãos.
Quando se fala do ‘chavismo’ e das suas perversões, omite-se um facto relevante: Hugo Chávez emergiu porque a democracia venezuelana foi um desfilar de atos de corrupção para deitar mão ao dinheiro do crude. Desgraçadamente, a revolução ‘bolivariana’ cedo se transformou num projeto unipessoal, com o poder assente num líder e numa corte imensa de oportunistas que se constituiu em guarda pretoriana do ditador. Como sempre, ela substitui o Estado e decide quem se senta à mesa das mordomias e quem é perseguido, preso ou morto por discordar do ‘salvador’ da pátria.
Não tendo Nicolás Maduro a autoridade natural de Chávez, nem a sua dimensão política, foi apenas um ‘clown’ o que Donald Trump retirou do ‘bunker’ de Caracas. Tal como não é mais que uma sombra a presidenta interina, Delcy Rodríguez, que os Estados Unidos deixaram ficar no comando do país para fazer o que um líder eleito não quereria: ser uma marioneta dos Estados Unidos. Daí que os venezuelanos pareçam condenados a continuar sob a pata da ditadura, com os beneficiários da boa vida, aqueles que não têm de se ‘abastecer’ nos supermercados vazios ou nas farmácias onde não existem remédios, a esquecerem Maduro e a obedecerem a Trump, cumprindo o único objetivo que têm na vida: manter os seus privilégios.
Ora, se a situação de um país pobre, decapitado e entregue a um aparelho de sicários já era trágica, os sismos de 24 de junho tudo pioraram, dando aos crentes a ideia de que até Deus desistiu da Venezuela. É que os males da tirania, da falta de liberdade individual à carência alimentar, passando por todo o tipo de outras privações, revelaram dispor ainda de uma face mais cruel quando a terra tremeu, largas centenas de edifícios desabaram, milhares de pessoas ficaram soterradas e o cenário se tornou numa visão do próprio inferno. Como e com quê acudir às vítimas?
Se um regime prejudica a sua produção petrolífera porque deixa deteriorar os equipamentos e não os substituiu, se não consegue garantir o abastecimento de bens essenciais à população, se gasta parte substancial do orçamento na compra de armas, se aceita ser governado por uma potência estrangeira e se continua a sustentar uma clientela que suga os escassos recursos que restam, imagina-se a disponibilidade financeira para o que devia importar. Da aquisição de maquinaria pesada, tão necessária nestes dias terríveis, aos meios indispensáveis a bombeiros e socorristas ou à dotação de instrumentos de diagnóstico e tratamento que possam salvar vidas nos hospitais. Para nem sequer relevar o sistema que permite ou não autorizar a construção de edifícios e a fiscalização das obras. Quantos prédios terão agora tombado por défice de cimento e de fundações adequadas?
Seria demagogia atribuir à ditadura o que é da responsabilidade da Natureza. Como não seria sério não reconhecer que país algum do Planeta, por muito desenvolvido que seja, possa acudir de imediato e a toda a gente, com o pleno dos meios. Mas a falta de ferramentas que possibilitem socorrer os sobreviventes em tempo útil é por demais evidente. E a necessidade de os sinistrados que chegam aos hospitais (os que ficaram de pé) terem de levar consigo os medicamentos é de uma brutalidade infinita. Tudo porque aos herdeiros do ‘chavismo’ nada interessa o povo, de que nunca cuidaram. E também por isso, equipas de resgate enviadas por dezenas de países solidários são bloqueadas e inspecionadas durante horas, enquanto mais vítimas soçobram sob os escombros. Ao mesmo tempo, jornalistas de todo o Mundo são condicionados pelo exército, de modo a esconder a tragédia e a negligência de um regime que vive do nepotismo e da propaganda.
Talvez um dia, ou talvez não, Trump preste contas aos norte-americanos por estes dias de raiva – e por ter ficado com o petróleo e deixado os tiranos no poder. Que Deus salve a Venezuela.
Publicado em 24horas.pt em 1julho2026
