Alexandre Pais

Em defesa de Cristina Ferreira

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Chama-se lei do retorno e infelizmente nem sempre é cumprida. Mas desta vez tocou a Cristina Ferreira, vítima ao que diz a TVI, em comunicado, de “um coro de críticas, com particular repercussão nas redes sociais”, as mesmas plataformas até hoje utilizadas pela apresentadora do ‘Dois às Dez’ para que seguidores fanáticos persigam quem não é do seu agrado. E o façam de modo idêntico ao que a estação de Queluz agora repudia. E volto a citar: “Lamenta-se a forma, o tom, a descontextualização e a manipulação grosseira com que as palavras da apresentadora estão a ser interpretadas e disseminadas”. Ou seja, Cristina a provar do próprio veneno.

Pois foi exatamente uma ‘manipulação grosseira” o que fez a TVI a propósito de uma crónica que assinei no ‘Correio da Manhã’, em 2023, e na qual me referi ao excesso de peso de Maria Botelho Moniz e à falta de ginásio de Cristina – uma opinião pouco feliz, embora baseada em evidências, e que fez de mim o misógino que não sou. Como tal, fui então lançado às feras na TVI: à tarde, numa entrevista enviesada de Manuel Luís Goucha a Maria B. Moniz, e à noite, no Jornal Nacional, com uma Sandra Felgueiras a deitar chispas pelos olhos. E, claro, fui lapidado num arraial de histerismo no Instagram e sei lá mais onde pelos bajuladores de Cristina, gente treinada no insulto e com a vidinha mal resolvida. Muitas delas serão as mesmas criaturas que dirigem por estes dias impropérios à ex-amada criadora, acusada, calcule-se, de ser machista. O karma é tramado.

Dito isto, passo à polémica que motivou uma série de reações desproporcionais, que já vão em milhares (!) de queixas à ERC e de petições para retirada de La Ferreira de antena. E anúncios de queixas-crime, promovidos por anónimos e individualidades avulsas ou associações disto e daquilo, verdadeiras ou falsas, numa dimensão que raia o ridículo. Não pelo problema, que não é para brincadeiras, mas pelo exagero das repercussões. Cristina é acusada de ter minimizado uma agressão sexual gravíssima, uma violação em grupo de uma menor por quatro imbecis que, como influenciavam (?) muitos anormais como eles, se julgavam no direito de fazer o que lhes apetecesse. Interessa zero o que lhes fez a ‘adrenalina’, da condenação do que fizeram é que não nos podemos afastar.

Ao debater o assunto no ‘Dois às Dez’, da TVI, Cristina disse (como se estivesse à mesa no café): “Há que ter noção dos riscos quando se combina um encontro a quatro. Mesmo que ela tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve, e claro que têm de ouvir, mas alguém entende que ela não quer mais?” Palavras perigosas, proferidas com a intenção de provocar a discussão no painel de ‘especialistas’ e não certamente de relativizar o consentimento ou de justificar o injustificável. Mas que não tiveram em conta a gravidade de um caso que deve ser tratado com pinças para que não restem dúvidas a outros javardos que ‘não é não’, seja dito no início, a meio ou perto do fim. Essa é a tecla onde se deve bater. O resto serve apenas de ruído e retira o foco do comportamento repugnante e do crime.

Resta-me referir a falta de sensibilidade e de empatia na abordagem, a ligeireza a tratar de um tema delicado. Isso deu-se porquê? Porque Cristina não se prepara. É uma comunicadora sem escola, ganhou fama depressa de mais, deslumbrou-se com o sucesso e o desafogo financeiro. E com produções megalómanas em que a TVI derreteu milhões de euros sem retorno nas audiências ou com chachadas pretensiosas como o ‘Cristina Talks’, para as quais não dispõe de credenciais, sejam académicas, profissionais ou sequer de experiência de vida. A sua arrogância chegou ao ponto de se julgar – e de o dizer – capaz de ser Presidente da República!

É essa falta de noção que faz Cristina Ferreira largar pela boca fora qualquer coisa que lhe venha à cabeça – ela acha que tudo o que diz são pérolas. Não distingue as boçalidades que modera, em alguns programas, das matérias sensíveis cujo debate exige ponderação, estudo e preparação. Aconteceu-lhe mais uma vez, tornou-se num padrão – já se tinha ‘espalhado’ noutras ocasiões – e agora a castanha rebentou-lhe na boca. Talvez lhe faça bem, talvez aprenda. Ou talvez o seu ego descomunal não lhe permita o banho de humildade que o bom senso aconselharia.

Publicado em 24horas.pt em 20 abril 2026

Por Alexandre Pais
Alexandre Pais

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