Alexandre Pais

O ‘acordo de paz’ Israel-Hamas é um embuste

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Meses atrás, perante a insistência das notícias que davam por concluído um acordo entre Israel e o Hamas, para a retirada do primeiro da faixa de Gaza e a entrega das armas pelo segundo, publiquei um artigo no ‘Correio da Manhã’ explicando porque achava que se estava perante um embuste. Agora, tendo regressado a conversa da possibilidade de um entendimento, abusarei da paciência dos leitores do ‘24 Horas’ para sublinhar aquilo que nos ensina a experiência: não haverá qualquer compromisso entre os dois velhos inimigos.

Comecemos pelo Hamas, que terá aprovado um plano de paz proposto pelos Estados Unidos e que Netanyahu liminarmente rejeitou – e veremos porquê. O grupo palestiniano radical só quer que as Forças de Defesa de Israel (IDF) desapareçam do seu território para poder retomar a propaganda e reconstruir os túneis, e criar novas formas de resistência e de terror. Entregará apenas aquela parte do material de guerra que menos lhe interessar ou que estiver deteriorado e ficará com a ‘nata’ do armamento que conseguiu preservar. Disto não sairá, até porque sabe que os israelitas jamais abandonarão o processo de liquidação seletiva dos quadros palestinianos que sobreviveram. E esse é o cerne da questão.

Israel esquecerá o assalto terrorista de 7 de outubro de 2023 tão depressa como esqueceu o Holocausto, ou seja, nunca. Castigar a selvajaria que mutilou, violou, sequestrou e assassinou 1 200 pessoas, muitas delas velhos, doentes e crianças, arrancados das suas casas antes destas serem incendiadas, é uma marca brutal, implantada a ferro e fogo – e impossível de apagar.

O sentimento de vingança que move Netanyahu e o seu governo pode não passar de uma estratégia de sobrevivência política para quem analise o conflito de fora, mas é algo profundo que Israel leva muito a sério. É que dos cerca de 5 mil ‘invasores’ do Hamas de 7 de outubro terão já morrido metade e 300 estão presos e aguardam julgamento, pelo que restam ainda vivos e em liberdade ‘várias centenas’ – segundo fontes como o ‘Times of Israel’ ou o Channel 12. Esses serão localizados, perseguidos e capturados ou eliminados ‘até ao último homem’, de acordo com relatórios oficiais.

Para essa ‘liquidação total’ existe uma ‘operação especial contínua’ que reúne as IDF e os serviços de inteligência do Shin Bet – sem esquecer os da Mossad, claro – numa unidade designada por Nili (acrónimo de ‘a eternidade de Israel não mente’). É ela que lidera a caça aos ‘fugitivos’, com o recurso a reconhecimento facial, IA e vídeos confiscados aos atacantes ou divulgados pelos próprios. E a interrogatórios, muitos interrogatórios.

Face a esta realidade, as supostas conversações de paz não passam de manobra de diversão. Quando o objetivo único dos inimigos é a eliminação física do outro, resta a guerra e a sua corte monstruosa de vítimas inocentes – como as israelitas de 7 de outubro ou as palestinianas que pereceram sob os escombros de uma terra destruída. Mas há também as menos inocentes, como aquelas famílias de Gaza, algumas com crianças em casa, que mantiveram em cativeiro, sujeitos a torturas inimagináveis, reféns do 7 de outubro. Desgraçadamente para todos, o rol de atrocidades não irá parar, perpetuando um ódio que se revigorará de geração em geração como sinal da derrota da civilização às mãos da barbárie.

Crónica publicada em 24horas.pt em 12agosto26

Por Alexandre Pais
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