Alexandre Pais

O montículo de Odemira ou a perseguição a um ministro capaz

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Entrou morno agosto, até com uns borrifos de chuva, uma trégua para populações e bombeiros, e para o ministro da Administração Interna a necessitar de um pouco de carinho. A esse presente divino juntou-se a ida para férias de parte da cambada que resolveu fazer a vida de Luís Neves num inferno. Adiou-se assim para setembro a continuidade do festim montado à volta de um dos mais capazes membros do Governo.

Parece que das obras num pequeno monte, de um tanque de água esverdeada, de uns modestos milhares de euros pagos em mão e de uma suposta falta de licença vá lá perceber-se para quê – atos gravíssimos com os quais nenhum português seguramente se identifica ou alguma vez praticou – depende a saúde de uma sociedade e a felicidade e o futuro da Nação.

Já eu adoraria sentir idêntica preocupação e atirar foguetes no mesmo arraial, com um enredo mais comezinho: a compra de material militar por cerca de 6 mil milhões de euros, uma ninharia. Ao que consta, vamos adquirir fragatas, drones, satélites e carripanas várias, não sabemos com base em que critérios, nem se houve concursos e que empresas concorreram, nem se há ou não comissões a pagar e a quem, ou sequer se está ou não alguém a fiscalizar o alegre negócio – onde para a anunciada ‘estrutura de missão’? Pacífico, unicamente o facto de a retribuição dos equipamentos – pelo valor mais favorável ao Estado, certamente – não ser feita em numerário, desplante a que se deu a mulher de Luís Neves ao passar aquela fortuna indecorosa para as mãos do empreiteiro de Barcelos. Perante a basbacaria silenciosa, o secretismo em torno de um investimento público astronómico preocupa-me – não o montículo de Odemira. Mas isso sou eu.

Vou dar outro exemplo e igualmente insignificante: o contrato de 3,06 milhões de euros que o Ministério da Educação fez com a Deloitte para a ‘digitalização, gestão de projetos e classificação eletrónica de exames nacionais’ e que redundou no lindo imbróglio que se sabe. Não que ponha em dúvida – aliás, como no caso anterior – a seriedade de quem quer que seja, mas gostaria de sentir alguma inquietação com uma contratação de valor tão elevado e ver perguntado: foi para fazer concretamente o quê, se outras agências foram consultadas, se foi caro ou barato, e por aí fora. Enfim, ver levantadas dúvidas que suscitassem o amplo esclarecimento que não vi prestado. Perante a basbacaria silenciosa, esta despesa absurda, ou quem sabe não, preocupa-me – não o montículo de Odemira. Mas isso sou eu.

Eu que poderia continuar a dar exemplos de opacidade – e lá iria cair no financiamento dos partidos, nova inconveniência – fico-me então por uma derradeira preocupação e por um cumprimento. A primeira é pela séria hipótese de – por causa de um atrelado que a Polícia Judiciária não tinha onde guardar sem pagar e pagar bem – se vá devassar numa comissão parlamentar, em que não faltarão arrivistas, o funcionamento de uma das poucas instituições que funcionam bem em Portugal e na qual os portugueses confiam.

Termino com o cumprimento, endereçando-o a uma pessoa que nunca vi e que me desconhece a existência, o que, tendo sido polícia, é um excelente sinal. E saúdo-o por uma vida dedicada ao serviço público, que agradeço. Como estou grato pelo trabalho excecional feito na PJ e agora pelo seu empenho e afirmação no terreno, neste difícil meio ano como MAI. E agradeço-lhe ainda a paciência – e espero que a renove porque vai precisar – com que responde a perguntas pertinentes, umas inteligentes, algumas estúpidas, muitas repetidas mil vezes. Ou a coragem com que enfrenta velhos bandidos de sempre, ora travestidos de homens perfeitos, perdedores que exigem a sua demissão com uma raiva semelhante à que põem na desgraça do país. Não deixe que desta vez lhe ganhem, Luís.

Publicado em 24horas.pt, 5agosto2026

Por Alexandre Pais
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