Ontem perdi o resto da minha fé neste país
Autor: Diogo Dantas (texto reproduzido com a devida vénia)
Os hospitais são centros de dor e sofrimento humano. Onde nós, utentes, como seres humanos, nos sentimos mais frágeis e vulneráveis. Acresce que nos últimos anos tenho ido somente a Hospitais privados. Ontem fui, como acompanhante, ao Hospital de São João.
Fiquei horrorizado, triste, desiludido. E apesar de ser já um velho de meia-idade, perdi o resto da esperança em Portugal.
Durante a minha vida, tenho feito algum serviço público e ao público. Há pessoas mais difíceis e mais fáceis, mas aprendi sempre a não julgar precipitadamente. Jamais maltratei ninguém, nem como professor, nem como cientista, nem como qualquer outro profissional. Posso não ter relevância na sociedade, mas jamais suportaria ter qualquer senso de superioridade perante outro ser humano.
O que eu observei no Hospital de São João foi de uma desumanidade que não fazia ideia existir. Uma enfermeira a gritar e a maltratar um utente simplesmente porque podia, sem o mínimo de razão ou falta de cidadania que o justificasse. Uma jovem deitada no chão a chorar, no meio da sala das urgências, com os médicos a desviarem-se e sem quererem saber – médicos e médicas tão jovens, com idade para ser meus alunos na universidade e a quem eu queria poder contar que a vida não pode ser assim, que há um sentido de missão que é mais importante que tudo. Muitos mais casos e situações, como um casal de idosos que estava há sete horas para ser atendido, ele a tentar ser forte e ela desesperada. Olhei em volta e não havia excesso de doentes, pelo contrário: conseguia contar mais profissionais de saúde, que pareciam viver numa comédia romântica, indiferentes à dor e ao sofrimento. E havia tanta dor e sofrimento. Pela doença, mas também e sobretudo pela forma como as pessoas eram tratadas: como gado, sem caridade, sem humanização. Já tinha ouvido relatos, mas pensei que era exagero. Há semanas, um jovem turista dizia-me que já tinha viajado pelo mundo todo e nunca tinha sido tão mal atendido na vida como no Hospital aqui. Na altura, não lhe dei crédito.
Normalmente, quando lemos notícias sobre médicos e enfermeiros nos jornais, é porque são vítimas. Por serem mal pagos, por serem incompreendidos e injustiçados. Até ontem, eu tinha até ideia de um certo heroísmo. Ontem inverti a minha opinião: não, nem pensar.
Um dia num hospital específico, neste caso o Hospital de São João, talvez não seja generalizável. Mas o que eu vi ontem é uma realidade completamente diferente. Envergonhou-me como português. Envergonhou-me como portuense. Envergonhou-me, sobretudo, como ser humano.
Lembrei-me de um artigo científico que li há tempos. Explica como circunstâncias, autoridade, pressão social, conformismo e processos de adaptação podem levar pessoas comuns a ter este comportamento. Neste caso que eu estava a testemunhar, era a indiferença ao sofrimento e a absoluta falta de empatia com o próximo. E aquilo horrorizou-me. Comoveu-me. Chorei, de raiva e de desilusão.
Diogo Dantas no Linkedin, 17setembro26
