Alexandre Pais

Regresso ao tempo dos bonecos da bola

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Não pensem os leitores que tiveram a paciência de seguir aqui, há uma semana, a descrição do início da atividade desportiva que me traria um dia ao Record, que o meu tosco pé esquerdo me fez perder o vício de correr atrás da bola. Aliás, a seguir à de trapos, chegou a era da bola de cauchu, já utilizada pelos mais velhos, mas que, no Portugal provinciano da década de 50, uma criança só podia dispor se fosse rica ou ganhasse o prémio final de colecionador de cromos dos jogadores de futebol.
Normalmente numa mercearia, compravam-se os rebuçados de má qualidade, embrulhados pelas fotos e por um papelito colorido, que o vendedor retirava da embalagem perante o nervoso miudinho do cliente: “Mexa bem, sr. António, mexa bem!” Depois, a malta guardava os “bonecos” novos e separava os repetidos para a troca, sabendo que só um completaria a coleção, semanas mais tarde: o sortudo a quem calhasse o chamado “boneco da bola” – um rebuçado colado ao fundo da caixa para ser vendido só no fim, em defesa do negócio – ou seja, o único que permitia preencher totalmente a caderneta e… levar a redondinha.
A alegria do vencedor – e futuro dono da bola nos desafios de muda aos 5 e acaba aos 10 – poderia apenas comparar-se, hoje, à do miúdo que abre um presente e encontra uma camisola autografada do Cristiano Ronaldo.
Vivia-se num outro Portugal, sem internet, sem televisão, sem autoestradas, sem subsídios e sem abertura ao pensamento que não fosse o único. Daí que os jogos nacionais, cujos relatos se ouviam – e não eram todos – ao domingo, através da rádio, e os dos distritais, em que se respirava poeira e se partiam pernas, tivessem depois, durante a semana, continuação nas tertúlias espontâneas das tabernas de Canas de Senhorim e na leitura escassa dos jornais. E, claro, nos bonecos da bola, divertimento reservado aos putos que logravam sacar uns tostões em casa!
Termino com um parágrafo para o futebol a sério e para Gabriele Gravina, presidente da Federação italiana, que admitiu terminar a atual época em novembro e iniciar a próxima, em versão reduzida, em 2020 – o que corresponderia, afinal, ao que o treinador André Vilas-Boas prenunciou… há um mês. Uma previsão que vai além do novo e otimista calendário da UEFA, que marca agora para agosto as fases finais da Champions e da Liga Europa, provas em que participam ainda clubes de 16 países, cujos governos terão de dar o seu acordo. Mas em Itália, como em qualquer país, a pressão para se voltar a jogar é tremenda e o mesmo Gravina aceita, em simultâneo, que se possa regressar aos treinos em maio para que a competição recomece em junho. Falta a decisão das autoridades sanitárias e a subsecretária da Saúde, Sandra Zampa, garantiu, entretanto, que se dependesse dela não se jogaria tão cedo. E falta conhecer o mais importante, a vontade dos jogadores, a carne para canhão de um retorno precipitado. Estarão dispostos a ser bonecos da bola e arriscar a vida? Em França, dizem que não…
Outra vez segunda-feira, Record, 20abr20
 

Por Alexandre Pais
Alexandre Pais

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