A 9 de abril de 1982, dia do meu aniversário, o diretor do matutino ‘Portugal Hoje’, João Gomes – que dirigira o ‘Diário de Notícias’, de 1976 a 1978, e que viria a ser provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa – desafiou-me para ser chefe da redação. Eu já tinha uma carreira de chefia na rádio e o “PH”, fundado em 1979, não parara de devorar responsáveis editoriais. Num jornal ligado ao Partido Socialista, então na oposição, a confiança política sobrepunha-se à competência e os profissionais escolhidos para a chefia tinham sido genericamente um desastre. Se falhasse, seria mais um.
“O ‘Portugal Hoje’ na verdade só agora é que vai começar”, dizia, para me convencer, o João Gomes, entusiasmado como sempre. Não havia como recusar, ele era um grande jornalista, um homem bom e estávamos no mesmo barco: a opção era lutar ou morrer.
O mês de maio foi horrível. Deixámos as instalações da CEIG, no Dafundo, e fomos para um pequeno prédio do centro de Lisboa, onde se instalara um ‘novíssimo’ equipamento de fotocomposição, que João Gomes de boa fé adquirira, mas que ninguém conseguia que funcionasse em condições. Os textos saíam truncados e aos ‘soluços’ – era um desespero pela madrugada fora.
O jornal chegou a publicar-se apenas com 8 páginas e chegava ao encontro com os leitores tarde e a más horas – e esse é o princípio da desgraça. Os adiantamentos de dinheiro por parte da distribuidora começaram a falhar. A publicidade, que já era pouca, desapareceu. E só um pequeno grupo de jornalistas ainda arregaçava as mangas e recusava desistir.
Mas cedo a crise chegou aos salários, após empresários como Salvador Caetano ou Abel Pinheiro terem suspendido os apoios pontuais que iam adiando o fim. Foi nessa altura que alguém no PS sugeriu a João Gomes que fosse à Venezuela falar com o antigo (1974-79) e futuro (1989-93) Presidente, Carlos Andrés Pérez, suposto mecenas ligado à indústria do petróleo e a quem não faltariam recursos para uma ajuda generosa.
João Gomes levou na bagagem uma carta de Mário Soares para Pérez, mas nem assim logrou sequer ser recebido e ficou-se por contactos na nossa emigração. E houve um português, só um, que lhe deu 100 contos, pouco mais de 4 400 euros (feitas as contas à inflação de 44 anos). Uma gota no oceano das dificuldades do ‘Portugal Hoje’.
Editorialmente enfraquecido, sem chegada regular às bancas, já com poucos jornalistas, alguma parasitagem e motivação próxima de zero, o ‘diário do PS’, que em 1980 chegara a vender mais do que o ‘Correio da Manhã’ – como é a vida! – agonizava. João Gomes, que tudo dera pelo seu projeto, não merecia a decisão que teve de tomar naquele triste início de tarde de 29 de julho de 1982. Chorámos juntos. Mas como as pessoas, os jornais morrem. Ontem como hoje. E nem as ‘venezuelas’ lhes valem quando chega a hora em que os leitores os consideram dispensáveis. Estou quase tentado a dizer: e ainda bem.
Crónica publicada em 24horas.pt em 5jan2026, com base num texto publicado neste blog em 4jul2014
