Alexandre Pais

Canto direto: castigo duplamente ridículo

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O meu camarada Nuno Farinha denunciou aqui, esta semana, a brincadeira constituída pelo castigo a Jorge Jesus, mais um caso revelador do estado a que chegou, a exemplo do país, o futebol português.

Começa por ser ridícula, e injusta, a punição em si, já que o técnico do Benfica disse a verdade e nada mais que a verdade. O árbitro auxiliar viu claramente Maicon adiantado – nós todos vimos e vimos que ele viu – e não levantou a bandeirola. Por que não quis? Certamente, já que na clareza das imagens televisivas não se vislumbra qualquer arma apontada ao seu peito, nem existe, ao que se julga, nos dossiers do sr. Vítor Pereira, declaração médica que certifique a impossibilidade de o ajudante levantar o braço que segura a bandeirola no décimo de segundo imediato à ordem emanada da sua cabecinha. E, sendo assim, Jorge Jesus ofendeu quem?

Depois, claro, temos o timing escolhido, que é desde logo a passagem de um atestado de estupidez a toda a gente, pois nasce do princípio de que talvez ninguém se aperceba da habilidade.

Não culpo as estruturas do nosso futebol por mais esta macacada. Afinal, elas tornaram-se num estado dentro do Estado e aproveitaram a independência que a lei lhes confere para construírem uma moral feita de cumplicidades, erros e compensações, e que, com as nuances decorrentes da maior ou menor qualidade dos seus intérpretes, procura ir agradando aos baluartes do poder, os grandes clubes, mas criando sempre a ilusão de pairar sobre eles e até de os ignorar. É preciso ter arte para se funcionar assim.

Aliás, a timidez das críticas a este comportamento diz bem do que de facto interessa: que na próxima vez, quando me tocar a mim, haja uma espécie de mão dura – para me poder armar em vítima – e logo a seguir um arremedo de punição – para não me atrapalhar a vida. É o que temos e, para ser franco, estou mais preocupado com o novo assalto ao meu bolso, ontem anunciado pelo sr. primeiro-ministro. Que se amanhem, ora.

O meu camarada Nuno Farinha denunciou aqui, esta semana, a brincadeira constituída pelo castigo a Jorge Jesus, mais um caso revelador do estado a que chegou, a exemplo do país, o futebol português.
Começa por ser ridícula, e injusta, a punição em si, já que o técnico do Benfica disse a verdade e nada mais que a verdade. O árbitro auxiliar viu claramente Maicon adiantado – nós todos vimos e vimos que ele viu – e não levantou a bandeirola. Porque não quis? Certamente, já que na clareza das imagens televisivas não se vislumbra qualquer arma apontada ao seu peito, nem existe, ao que se julga, nos dossiers do sr. Vítor Pereira, declaração médica que certifique a impossibilidade de o ajudante levantar o braço que segura a bandeirola no décimo de segundo imediato à ordem emanada da sua cabecinha. E, sendo assim, Jorge Jesus ofendeu quem?
Depois, claro, temos o timing escolhido, que é desde logo a passagem de um atestado de estupidez a toda a gente, pois nasce do princípio de que talvez ninguém se aperceba da habilidade.
Não culpo as estruturas do nosso futebol por mais esta macacada. Afinal, elas tornaram-se num estado dentro do Estado e aproveitaram a independência que a lei lhes confere para construírem uma moral feita de cumplicidades, erros e compensações que, com as nuances decorrentes da maior ou menor qualidade dos seus intérpretes, procura ir agradando aos baluartes do poder, os grandes clubes, mas criando sempre a ilusão de pairar sobre eles e até de os ignorar. É preciso ter arte para se funcionar assim.
Aliás, a timidez das críticas a este comportamento diz bem do que de facto interessa: que na próxima vez, quando me tocar a mim, haja uma espécie de mão dura – para me poder armar em vítima – e logo a seguir um arremedo de punição – para não me atrapalhar a vida. É o que temos e, para ser franco, estou mais preocupado com o novo assalto ao meu bolso, ontem anunciado pelo sr. primeiro-ministro. Que se amanhem, oraO meu camarada Nuno Farinha denunciou aqui, esta semana, a brincadeira constituída pelo castigo a Jorge Jesus, mais um caso revelador do estado a que chegou, a exemplo do país, o futebol português.Começa por ser ridícula, e injusta, a punição em si, já que o técnico do Benfica disse a verdade e nada mais que a verdade. O árbitro auxiliar viu claramente Maicon adiantado – nós todos vimos e vimos que ele viu – e não levantou a bandeirola. Porque não quis? Certamente, já que na clareza das imagens televisivas não se vislumbra qualquer arma apontada ao seu peito, nem existe, ao que se julga, nos dossiers do sr. Vítor Pereira, declaração médica que certifique a impossibilidade de o ajudante levantar o braço que segura a bandeirola no décimo de segundo imediato à ordem emanada da sua cabecinha. E, sendo assim, Jorge Jesus ofendeu quem?Depois, claro, temos o timing escolhido, que é desde logo a passagem de um atestado de estupidez a toda a gente, pois nasce do princípio de que talvez ninguém se aperceba da habilidade.Não culpo as estruturas do nosso futebol por mais esta macacada. Afinal, elas tornaram-se num estado dentro do Estado e aproveitaram a independência que a lei lhes confere para construírem uma moral feita de cumplicidades, erros e compensações que, com as nuances decorrentes da maior ou menor qualidade dos seus intérpretes, procura ir agradando aos baluartes do poder, os grandes clubes, mas criando sempre a ilusão de pairar sobre eles e até de os ignorar. É preciso ter arte para se funcionar assim.Aliás, a timidez das críticas a este comportamento diz bem do que de facto interessa: que na próxima vez, quando me tocar a mim, haja uma espécie de mão dura – para me poder armar em vítima – e logo a seguir um arremedo de punição – para não me atrapalhar a vida. É o que temos e, para ser franco, estou mais preocupado com o novo assalto ao meu bolso, ontem anunciado pelo sr. primeiro-ministro. Que se amanhem, ora.

Canto direto, publicado na edição impressa de Record de 8 setembro 2012

Por Alexandre Pais
Alexandre Pais

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