Alexandre Pais

Incompetência escreve ‘tragédie française’

I

Após longas horas sem dar sinal de vida no sábado em que a França ardeu, Emmanuel Macron acabou por surgir na TV não para anunciar medidas destinadas a combater os problemas da educação, que supostamente estiveram na origem dos protestos, mas para fazer uma ameaça patética: “Quem destruiu, vai ter de pagar”.

Macron devia ter dito a verdade: “Quem sofreu a ver destruir e quem perdeu tudo o que tinha, vai ter de pagar”. Primeiro porque não haverá maneira de identificar 99% dos criminosos que participaram nos saques e na destruição de 17 de outubro – e a maior parte dos que forem apanhados não terão sequer modo de subsistência. Depois porque a França vive uma situação de crise orçamental assustadora.

A dívida, que era de 3.595,5 mil milhões de euros em junho (quase 13 vezes a nossa) e que aumentou 135 mil milhões só desde 31 de dezembro de 2025, corresponde a 119% do PIB (92,6% em Portugal) este ano. Para 2027 prevê-se uma percentagem de 121,7, mas ela será forçosamente maior.

Por outro lado, o défice é de 5,4% (será nulo por cá), promete subir até dezembro e superar em muito o limite de 3% estabelecido pela União Europeia. Onde irá a França arranjar recursos para responder às múltiplas exigências daqueles manifestantes que são de facto estudantes ou cidadãos produtivos e que reclamam melhores condições de estudo e de vida?

Claro que a derradeira onda de violência que varreu Paris e outras grandes cidades resulta da falta de qualidade política de quem tem governado o país e também da inacreditável falha de eficácia dos profissionais que deviam zelar pela segurança dos franceses.

A falta de qualidade política encontrou no atual Presidente a sua máxima expressão. Confrontado com uma situação económica complicada, pouco corajoso para tomar decisões difíceis e incapaz de travar a agudização de uma crise social que não para de se agravar – e que continuará – Macron, em sete anos e meio, pôs de rastos tanto o que restava do centro do espectro político que existia antes das presidenciais de 2019, como o partido que ele próprio criou.

O candidato Édouard Philippe, do Renaissance, partido do centro-direita macronista, alcançou apenas 15,5% das intenções de voto na sondagem da Elabe do passado domingo. Pode, assim, não reunir a suficiente preferência dos eleitores moderados, a 18 de abril, e com isso deixar, em 2 de maio, os franceses ‘condenados’ a ter de escolher, numa segunda volta, entre o líder da extrema-esquerda – Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa – e o da extrema-direita – Marinne Le Pen, da União Nacional. E se isso acontecer, e em qualquer dos casos, as consequências serão aterradoras: desde logo, o fim do apoio à Ucrânia e um papel desestabilizador da União Europeia, que poderá mesmo conduzir à saída da França.

Perante tudo isto, quase não valeria a pena referir a incompetência absoluta dos responsáveis pelo controlo de uma ação de protesto – que não foi espontânea e sim antecipadamente anunciada – para mais contando com a experiência de décadas de tumultos graves, como foi o caso das desordens provocadas pelos ‘coletes amarelos’.

Pois o Ministério do Interior, no qual se integra a Prefeitura de Polícia de Paris, aceitou que bastariam 5 mil (!) agentes da Gendarmaria, da Polícia Nacional e das suas forças de choque, as CRS, para suster muitos milhares de manifestantes. Não previu, estranhamente, que a eles se somariam – os de sempre – bandos de energúmenos oriundos das zonas suburbanas degradadas e que só precisam de uma oportunidade para espalhar o caos: seja nos estádios de futebol, nos locais de diversão noturna ou nas ruas. E não eram poucos, o número total terá rondado os 800 mil.

Os 5 mil polícias deveriam ter sido talvez o triplo e contar ainda com uma segunda linha de outros tantos, além de algumas centenas de agentes à paisana para se ocuparem das detenções. E se no Governo de Macron houvesse coragem – por exemplo a coragem que Giorgia Meloni revelou para defender Milão – teriam estado também de prevenção unidades do Exército, que poderiam ter travado as pilhagens.

O resultado foi pornográfico: bairros na mão de saqueadores, famílias aterrorizadas, lojas vandalizadas, comerciantes agredidos, jovens transportando objetos roubados (com algumas ‘mães’ a ajudar no transporte), equipamento urbano destruído. Apesar da dimensão da baderna, os detidos na capital não passaram de 2 500. E para lá de Paris, completamente indefesas face ao efeito de contágio, cidades como Lyon, Lille, Rennes, Toulouse, Bordéus ou Marselha ficaram igualmente indefesas frente a dezenas de milhares de díscolos mascarados. Em Limoges, o edifício renascentista da câmara – uma preciosidade inaugurada em 1883 e que resistiu a duas guerras mundiais – foi esventrado, incendiado e sofreu danos estruturais dificilmente reversíveis. Pobre França.

Uma interrogação final para as grandes marcas, já tantas vezes vítimas da destruição e da barbárie, que bem poderiam ter feito o que fez, por exemplo, a Dior, que montou em Paris uma equipa robusta de segurança privada, evitando desse modo a entrada dos selvagens. Afinal, além de permitir aos acionistas fazer férias nas Bahamas, o dinheiro serve-lhes para quê?

Publicado em 24horas.pt em 21outubro26

 

Por Alexandre Pais
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