Não há reforma laboral, falhas do SNS, aumento de preços dos combustíveis, entrevistas de André Ventura, gatunagem à solta ou Prestação Social Única que nos excite particularmente por estes dias. Tudo gira hoje em torno do Mundial de Futebol ou, melhor dito, ao redor da utilização plena, da menor utilização ou até da não utilização de Cristiano Ronaldo na equipa das quinas. É a guerra aberta entre os incondicionais, radicais ou moderados, do capitão da Seleção, e os seus diabolizadores, que vão do imbecil ao acéfalo. Poder falar mal de um ícone global proporciona-lhes, julgam eles, o estatuto que a vida lhes recusou.
Compreende-se que se ache que Cristiano já não é o mesmo dos melhores tempos. Não o poderia ser aos 41 anos. Falha por vezes golos que noutras alturas não falharia? É verdade. O que é mais difícil de aceitar é que não se entenda que ele é ainda o nosso jogador mais eficaz na sua posição e é por isso que é convocado. Por isso e pela intensa paixão que mantém pelo jogo, e pelo entusiasmo dos 18 anos com que continua a subir ao relvado e a perseguir o sucesso.
Mas não só. É que do ponto de vista estratégico, os 11 da Seleção jogam normalmente contra 10, pois a simples presença de CR7 em campo obriga o adversário a ter não um, mas pelo menos dois defesas ‘em cima dele’, libertando espaço para os outros avançados. E em termos mentais Cristiano constitui uma inspiração para os companheiros, que sentem em ação, ao seu lado, um dos melhores jogadores de sempre e o maior goleador da história do futebol. Finalmente, há que ter em conta esse ‘pormenor’ do prestígio, da admiração com que é visto pelos opositores. E pelo respeito que se nota até nos árbitros. A ingenuidade é morta.
De fora, fica a gratidão pelo que a equipa de todos nós logrou, ‘transportada às costas’ por Cristiano Ronaldo e por uma plêiade de grandes talentos: com 3-títulos-3 nos últimos dez anos, temos a seleção mais vitoriosa do Planeta, coisinha pouca. Como alguém lembrou há dias, e foi apenas um exemplo, sem os dois golos de Cristiano à Hungria não teríamos sequer ultrapassado a fase de grupos no Europeu de 2016. Mas que interessa isso? Na final, contra a França, ele quase não jogou… lembram, ressabiados, os detratores.
Quando se sublinha uma evidência, que os anos passam sobre Cristiano, há que distinguir dois tipos de críticos: os racionais e os descerebrados. Os primeiros – que metem a cabeça de fora logo haja um ou dois jogos sem golos de CR7 – disfarçam as suas reservas atrás de um problema que Jorge Jesus resolveu, com sabedoria, no Al-Nassr, e que foi a gestão na utilização do seu principal futebolista. Mal um jogo ficava resolvido, JJ substituía-o. E quando havia partidas pouco ou nada relevantes, nem sequer o convocava.
Foi essa opção de mestre que possibilitou que Cristiano chegasse ao Mundial em excelentes condições. E Roberto Martínez deu indicações de que seguirá por esse caminho ao longo do torneio, até porque existe a expectativa de que a Seleção possa vir a disputar oito jogos. E ninguém é de ferro. Além do capitão, titulares habituais como Rúben Dias, Nuno Mendes, Bernardo Silva, Gonçalo Inácio, Rafael Leão ou mesmo Bruno Fernandes estão nos Estados Unidos com largas dezenas de jogos nas pernas e o inerente castigo físico. Sim, ninguém, Cristiano incluído, tem de jogar sempre ou jogar o tempo inteiro. Dessa gestão, aliás, dependerá em grande parte o êxito ou o inêxito da Seleção neste Mundial.
Resta-me falar nos ‘haters’, muitos deles acéfalos. E aí as coisas tornam-se mais claras. Porque é puro ódio social – com o seu rol interminável de matizes – o que alguns portugueses alimentam pelo compatriota que tornou o País mais conhecido em todo o Mundo. Porque ganha demasiado, quando recebe de acordo com as receitas que gera. Porque está a apoiar um país onde não existe igualdade de género, sem se ter em conta os avanços nos direitos das mulheres que a sua chegada à Arábia Saudita permitiu. Porque foi recebido por Donald Trump, como se fosse o único ou o Presidente norte-americano não tivesse sido eleito pela maioria dos eleitores. Porque é vaidoso, como se o que conseguiu na vida pudesse não resultar em óbvio motivo de orgulho.
Enfim, tudo serve para tentar, sem sucesso é certo, denegrir a imagem de um grande embaixador de Portugal, de um homem que do nada se tornou na personalidade mais popular da internet: é a única figura planetária que soma acima de mil milhões de seguidores. E é por ele que os jogos em que participa a Seleção Nacional nos Estados Unidos foram os primeiros a esgotar as lotações, com as vendas a atingirem, entretanto, no mercado negro, valores estratosféricos. Mas como nada disso acalma os demónios pousados nos ombros dos ‘haters’ de Cristiano, antes da partida de hoje contra o Congo quero incentivá-los a adotarem a palavra de ordem que melhor os define: ‘Invejosos de todo o Mundo, uni-vos!’ É a vossa hora. E pode correr-lhes tão mal…
Publicado em 24horas.pt em 17junho2026
