“Cris, preciso de ti”, suplicou o selecionador nacional. “Se não fosse a forte amizade com Jorge Jesus, Cristiano teria deixado a Seleção após o Mundial”, revelou Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Ambos são, por isso, responsáveis por um país dividido, a favor ou contra um dos melhores futebolistas da história – e que tornou Portugal conhecido nos lugares mais recônditos do Planeta.
O jornalista António Tadeia escrevia por estes dias na rede social ‘X’ que as 100 maiores federações de futebol estão ‘a nadar em dinheiro’, pelo que não seria por motivos financeiros que PP precisaria que Cristiano Ronaldo regressasse à Seleção. A questão é que a FPF está com prémios em atraso a funcionários e até os jogadores que estão a disputar a Liga das Nações ainda só terão recebido uma parte do que lhes é devido. Quando se faz vida de rico, mesmo que o dinheiro abunde, nunca chega.
Acontece que estando Cristiano Ronaldo em Riade e com nove (!) jogos num mês em agenda – a começar na próxima sexta-feira – complica-se a vida de Pedro Proença para tentar convencer a lenda madeirense a voltar. Para mais, conta com a oposição da família e do círculo próximo do jogador, que há muito o haviam aconselhado a dar por finda a sua inultrapassável carreira internacional. E se a vontade há três meses já era nenhuma, calcula-se como estará hoje…
Eu sei que os não adeptos de Cristiano gostariam de ver o imbróglio resolvido com uma simples festinha de despedida para descargo de consciência, mas se já não será fácil fazer com que CR7 torne a ouvir à voz de ‘comandante’ de Jorge Jesus, bem mais duvidoso será que aceite esse rebuçado sem se falar mais no assunto.
A poder pensar no retorno, o capitão da Seleção exigiria sempre a reposição das condições que combinou com Jesus, a gestão de esforço que o selecionador lhe tinha preparado e o restabelecimento da relação pessoal que possibilitou o convívio e o trabalho comum no Al-Nassr, aliás com excelentes resultados. E é nessa relação pessoal que encontramos o maior obstáculo porque, se for verdade que Cristiano se sentiu ‘traído’, a desconfiança muito dificilmente deixará de pairar sobre os dois ex-amigos.
A falta do pedido de desculpas que muitos ‘especialistas em Cristiano’ alegam estar na origem do abandono do estágio da Seleção é outro fator de desestabilização. Por um lado, não existe no âmbito do carácter egocêntrico de JJ a capacidade para tal pedido público – nem vejo motivo para tal, uma vez que já reconheceu que devia ter mandado o jogador aquecer um bocado mais tarde. E por outro, não pode um selecionador nacional, e se pode não deve, dar esse sinal de fraqueza aos homens que lidera.
Mas Jesus – que o antigo treinador Manuel José admite ter atuado propositadamente, no que não acredito – precisa de um entendimento. E por três razões. A primeira: sabe que se ‘esqueceu’ que Cristiano estava a aquecer e não quis admiti-lo. Mas sabe também que ele tem razão. Com um quarto de hora para jogar, mesmo sendo preciso defender o resultado, que deu Francisco Trincão à Seleção que não pudesse ter dado o capitão?
Aos 59 minutos da partida contra Gales e lançado por Bruno Fernandes, CR7 bateu em corrida o defesa e isolou-se para fazer o que teria sido o 2-0 – que o VAR anulou por centímetros. E então não tinha disponibilidade física para andar atrás dos noruegueses durante os 15 minutos que faltavam para o final? E mal acabou e jogo, Jesus não se explicou e ‘matou’ de imediato o problema porquê?
A segunda razão é que JJ sabe que gerido com sabedoria, como sucedeu na Arábia, Cristiano ainda lhe pode ser útil em campo. De repente, Gonçalo Ramos lesiona-se ou cai de produção, e depois? Mas há um terceiro e mais relevante motivo para o interesse de Jesus em Cristiano: é o lugar na história. O treinador não quer ficar nos livros como o homem que afastou o português mais conhecido do Mundo da sua Seleção. Pelo contrário, quer alavancar nele a sua imagem, fazer parte do seu último jogo, do seu último golo internacional, do seu adeus consensual e glorioso à camisola das quinas. Jesus quer ficar nessa fotografia. O que não estou a ver é como irá consegui-lo.
As quatro vitórias em quatro jogos ajudam a diminuir as tensões, mas Proença parece ‘curto’ para desatar o nó que criou, pensando ter descoberto a pólvora. Necessitaria de reforços, talvez Dona Dolores, Pepe, Luís Montenegro… Mas mesmo que levasse os três para Riade, a sua missão seria terrível. Boa sorte, bem precisa.
Publicado em 24horas.pt em 6outubro26
