Alexandre Pais

As coroas de flores voltam para o ano

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O elevador da Glória despenhou-se há um ano e no assinalar da data a querela partidária e a ingenuidade jornalística entretêm-se com questões laterais. Sim, hoje já pouco interessa a confusão estabelecida então, desde o anúncio da morte de pessoas que não morreram à dificuldade em contactar e informar as famílias das vítimas – muitas delas estrangeiras. Nenhum país do Mundo tem uma máquina perfeita preparada para enfrentar o inesperado, em especial quando os acontecimentos constituem, como foi o caso, verdadeiras tragédias.

O que de facto choca é o aproveitamento político e o chorinho sobre o leite derramado, a aceitação da realidade como se nada houvesse a fazer. Um ano depois, ninguém assumiu responsabilidades, não existem arguidos, as auditorias ou não têm conclusões ou ainda não foram divulgadas e há familiares de mortos e feridos que continuam à espera de respostas. Alguns não foram sequer contactados, ou melhor, foram, mas apenas quando receberam o convite para comporem a plateia, na inauguração do memorial que recorda os seus entes queridos.

Não sou dos que culpam Carlos Moedas pelo acidente – resultante acima de tudo do mal português do ‘deixa andar’ – nem vejo no ar compungido com que surgiu na cerimónia do Largo da Oliveirinha necessariamente um ato de hipocrisia. Que mais poderia fazer numa altura em que também ele está refém da lentidão dos inquéritos e da justiça num país que vai perdendo solidariedade e valores? E em que a Câmara de Lisboa está, por sua vez, dependente da seguradora, que só chegou a 4-acordos-4 num total de 40 vítimas, das quais 16 mortais.

Talvez a companhia de seguros pudesse andar mais depressa, mas face ao número de acidentados e às elevadas indemnizações que vai ter de suportar, a rapidez não é boa conselheira. E indo os processos para tribunal, com os advogados dos sinistrados a pedirem muito e os representantes da seguradora a contraporem pouco, os atrasos nas reparações financeiras serão maiores – esse é o segredo do negócio.

A comparação é ridícula, mas sei de um amigo que viu uma inundação na sua arrecadação inutilizar-lhe centenas de livros e discos, e alguns quadros e móveis, grande parte com largas dezenas de anos. Acionou a seguradora do condomínio e participou a ocorrência, logo entrando o processo em banho-maria perante a exigência de apresentação das faturas de compra (!) dos bens que foram destruídos. E entre uma qualquer perda irrisória e a tragédia da morte, a ‘filosofia’ das companhias de seguros é idêntica: pagar pouco e o mais tarde possível ou recorrer a subterfúgios e tentar não pagar.

A tragédia do elevador da Glória e o drama das famílias das vítimas, com todo o seu cortejo de dor, vai ficando para trás. E para o ano, e nos seguintes, haverá mais coroas de flores, mais rostos fechados e mais palavras carregadas de emoção – é a vida que prossegue no país dos brinquedos.

Publicado em 24horas.pt em 9setembro26

Por Alexandre Pais
Alexandre Pais

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