Alexandre Pais

José Sócrates tinha um projeto para o país

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O recente aproveitamento de uma frase de António José Seguro sobre José Sócrates, proferida em 2011 – “tenho orgulho do que fizeram os ex-líderes do PS e também o meu camarada José Sócrates”, atestada pelo ‘SIC verifica’ como se não estivesse gravada – serviu para continuar a distorcer a realidade e a reduzir a zero o papel do ‘animal feroz’ na memória coletiva. Sócrates venceu as ‘legislativas’ de 2005 e de 2009 porque mais de dois milhões e meio, e dois milhões de eleitores, respetivamente, de algum modo acreditaram nele – o socialista Seguro e este escriba sem partido foram apenas dois entre a multidão.

É que desde as autoestradas – que aos dias de hoje não parecem assim tantas como muitos então diziam – ao ‘boom’ da educação ou ao plano de barragens (que incluía a de Girabolhos, olha que coincidência), passando pela aposta no TGV, no novo aeroporto de Lisboa ou nas energias renováveis, Sócrates tinha uma visão, um projeto para a modernização do país – e um espírito reformista. Mas vamos a factos.

Na crise financeira global de 2008, caminhava Portugal para um défice de novo inferior a 3% – havia sido de 2,6% do PIB em 2007, o mais baixo em 30 anos – e uma dívida pública controlada, a União Europeia incentivou os estados-membros a ‘deitarem dinheiro’ em cima do problema. O ‘conselho’ foi aceite pelo primeiro-ministro José Sócrates, o que, dada a fragilidade da nossa economia – a dívida passou de 63,6% em 2007 para 135,5% (!) no ano seguinte – e a subida em flecha dos juros, acabou numa situação de pré-bancarrota – e não de bancarrota, como se repete até à exaustão na esperança de que passe a ser verdade. E isso terminou igualmente com o primeiro Governo de Sócrates, o de maioria absoluta do PS (2005-2009).

Veio depois Pedro Passos Coelho, que – ao contrário do que havia prometido na campanha eleitoral de 2011, em especial quanto aos rendimentos dos pensionistas – reforçou a austeridade que Sócrates começara de facto em 2010 (outra realidade que por vezes se tenta esquecer) e iniciou a recuperação do país. Daí que para as ‘legislativas’ de 2015, Passos e a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, se propusessem pôr fim aos cortes de salários e pensões, bem como à aplicação de sobretaxas, ao longo dos quatro anos seguintes – erro fatal.

É que quase do ‘nada’ e do anonimato político surgira Mário Centeno, na equipa do líder do PS e da oposição, António Costa, a acenar com o suposto final da austeridade, graças a uma ‘fórmula milagrosa’: aumento dos impostos indiretos, nomeadamente sobre os combustíveis, para devolver, num único ano, o que estava a ser retirado, há cinco, a trabalhadores e a pensionistas.

Nem mesmo assim Passos Coelho perdeu as eleições, é certo, mas o pragmatismo de Centeno impediu que a AD alcançasse uma maioria parlamentar que lhe permitisse governar. E António Costa pôde criar a ‘geringonça’ e chefiar o novo Executivo (2015-2019).

Apresentada de forma simplista, esta é a verdade do que aconteceu na economia e no bolso dos portugueses entre 2008 e 2015, pelo que não vale a pena que voluntaristas de esquerda e de direita, intelectualmente desonestos, insistam em contar apenas a parte da história que lhes convém. Outra coisa é a vida de Sócrates ter dado a seguir no que deu – seja lá o que for que venha a ser provado em tribunal. Mas para esta nossa conversa isso já são outros quinhentos.

Crónica publicada em 24horas.pt em 23fevereiro26

Por Alexandre Pais
Alexandre Pais

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