Alexandre Pais

Sem almirante, macacada à vista

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À saída da sua mesa de voto, o Presidente Ramalho Eanes, com a sabedoria e a invejável lucidez que é património do país, alertou para a “situação dramática” em que a Europa se encontra, explicando, e volto a citar, que “o Mundo passou da lei e da ordem para o poder (do mais forte) e a desordem”. Afinal, aquilo que o primeiro-ministro canadiano definiu agora em Davos como “uma rutura” global.

Estou certo de que muitos dos quase 700 mil eleitores que optaram por votar em Henrique Gouveia e Melo, no último domingo, o fizeram por maioria de razões por reconhecerem que a preparação do almirante em questões de defesa e segurança estaria a anos-luz da dos outros candidatos. E seria de transcendente utilidade na PR no caso de a situação internacional se complicar mais e os conflitos nos baterem à porta. É que em cima das naturais preocupações dos portugueses com uma área altamente especializada como é a das Forças Armadas, cai um fator perturbador: a perda progressiva da influência militar junto do poder político em Portugal.

Gouveia e Melo denunciou-o na campanha, sem que mais alguém se interessasse pelo tema: tanto o Conselho Estratégico da Defesa Nacional como o Conselho Estratégico Militar estão “completamente desatualizados”, ou seja, não funcionam. E pergunta-se, então, em que pareceres – e de quem – se baseou o titular da pasta da Defesa, e o próprio Governo, para avançarem à pressa com o pedido de aprovação da Comissão Europeia para encomendas de material militar no valor de 5,8 mil milhões de euros, que os contribuintes, em particular as gerações futuras, vão ter de pagar. Isso para não relevar a pequena dimensão das nossas estruturas de defesa e a necessidade imperiosa de se saber, antes da tomada de qualquer decisão, o que compram – e a quem e para quê – aliados importantes como a Alemanha, a França ou a Polónia.

Tendo finalmente em conta que o ministro Nuno Melo julga que Margarida II ainda é a rainha da Dinamarca – e ela já abdicou há dois anos – que troca, na designação da NATO, Atlântico Norte por “Atlético Norte”, e que quer reconquistar Olivença, não parece poder esperar-se nada de bom a concretizar-se a sua encomenda de material que se desconhece quem lhe encomendou. E o deslumbramento com que fez o anúncio faz-nos temer o pior.

Fica a esperança de que, uma vez em Belém, Seguro ou Ventura – que também pouco perceberão do assunto, valha a verdade – ou, melhor dito, um deles, desfaça o mistério, ouça quem de facto entende da matéria e se assegure de que não venha aí uma nova macacada. Irá a tempo?

Publicado em 24horas.pt em 21jan26

Por Alexandre Pais
Alexandre Pais

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