Alexandre Pais

Sábado: crónica em pedaços – 8

S

1. Creio que nunca vivi casos bizarros em férias, muito provavelmente porque gosto de me prevenir em terra e dou, assim, pouca margem para surpresas no mar. Fujo também de situações que se possam complicar e não tenho o mínimo espírito de aventura. Mas que o azar está atrás da porta está, e ainda há dias, em Madrid, passei um fim-de-semana que me deu que pensar: ia ver a estreia do Real na Liga e os futebolistas fizeram greve, um contratempo raríssimo, tive a primeira otite da minha já razoável existência, e que não me deixou dormir, choveu torrencialmente à noite – em Agosto! – e marquei a viagem sem me aperceber de que seria um dos dois milhões de turistas, a maior parte de pé-descalço, que acorreram a louvar Sua Santidade, o Papa, e a retirar qualidade de vida à capital espanhola. Não me queixo: gosto dos inconvenientes que ocupam o lugar das verdadeiras desgraças.

2. Parece que este Governo aprendeu alguma coisa com os erros do anterior. A designação de Miguel Relvas – quem mais poderia ser? – para controlar toda a comunicação do Executivo é uma medida lógica e que poupará o primeiro-ministro ao desgaste de perder tempo a explicar o que outros disseram e não deviam ter dito. Claro que a altura é propícia a uma definição dessa estratégia e à sua pacífica aplicação. Depois, como é evidente, quando Paulo Portas quiser falar, falará. E mesmo o Álvaro, se lhe der para aí, será imparável.

3. O caso das escutas ilegais ao jornalista do Público mais não é do que a confirmação de que somos já um Estado sem rei nem roque. Décadas sucessivas de contemporização com o desrespeito das leis levam a que hoje seja possível fazer a manchete de um diário com uma lista de personalidades que tomam medidas para minimizar os efeitos perversos das escutas a que se julgam submetidos. Viver assim é pior do que viver na pobreza.

4. Caiu na Líbia a ditadura, mas não tenhamos ilusões quanto aos novos dramas que se adivinham naquele país. O povo que saqueia os palácios não rouba em nome da liberdade e muito menos da democracia. É, em grande parte, gente que quer apenas ficar com o que não é seu e desfrutar do que não ganhou. Os líbios vão continuar, por muitos anos, a matar-se uns aos outros.

5. Os homens efectivamente ricos fazem dessa condição motivo para aparecerem pouco, falarem ainda menos e não darem espalhafato. Mas urricos portugueses são diferentes. Colocado perante a eventualidade de um imposto especial, Américo Amorim saiu a terreiro para o recusar, invocando a sua faceta de trabalhador. O rei da cortiça não conhece sequer a maior qualidade da sua matéria-prima: manter-se sempre ao de cima. Foi falar para quê?

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 1 setembro 2011. Tema de Sociedade da semana: férias bizarras

Por Alexandre Pais
Alexandre Pais

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